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Neste domingo (11) a Rede Paraíba de Comunicação inicia uma sequência de reportagens sobre educação. A 1ª aborda distorção idade-série


Fonte: Jornal da Paraíba (PB)

Aos 14 anos, Paulo (nome fictício)*, faz o 6° ano, mas deveria estar no 9°. O adolescente já foi reprovado três vezes e teme que a história se repita novamente no final deste ano, em consequência da dificuldade que tem nas disciplinas de matemática e inglês. Aluno de uma Escola pública de João Pessoa, ele faz parte dos 139 mil estudantes paraibanos que têm distorção idade-série no Ensino fundamental, segundo o levantamento do Qedu, que utiliza os dados do Censo Escolar 2013. Em termos percentuais o número representa 23%. É o mesmo que afirmar que, a cada 100 Alunos matriculados, 23 não estão na série que deveriam.
O problema do atraso Escolar abre a série de reportagens Educação em Pauta , produzida pelo JORNAL DA PARAÍBA e pelos demais veículos da Rede Paraíba de Comunicação. A partir de hoje, a cada edição, será publicada matéria sobre o tema, terminando no próximo domingo. A distorção idade-série é definida pela defasagem de mais de 2 anos entre a idade adequada e o ano que o Aluno está cursando. Está na lista dos principais desafios para melhorar a Educação no país, e também na Paraíba.
Com Paulo, o problema começou cedo. Aos 7 anos, quando estava no 1° ano do Ensino fundamental, foi reprovado pela primeira vez. No ano seguinte, veio a segunda reprovação. “Eu sempre tive dificuldade em aprender, desde que comecei a estudar não consigo entender direito o que a Professora ensina”, contou o estudante. No 4° ano, foi novamente reprovado. Ele admitiu que em casa não reserva tempo para revisar os assuntos na sala de aula e que também não gosta de estudar para as provas. Prefere brincar.
Nas Escolas de João Pessoa, o percentual da distorção idade-série é de 17%, sendo mais evidente entre Alunos do 6° ano (no qual a cada 100 Alunos matriculados, 32 estão atrasados). É o caso de João (nome fictício), que tem 13 anos e cursa o 6° ano em uma Escola pública da capital. Ele contou que já foi reprovado duas vezes (em 2010 e 2012), mas disse não se incomodar com o atraso. “Minha mãe só brigou uma vez, depois não falou mais”, afirmou.
Com Antônio (fictício), 13, a distorção idade-série tem outro motivo. Segundo o Aluno, ele estudava em outra Escola e foi transferido para a atual, que fica no bairro de Mandacaru, em João Pessoa. Contudo, a transferência não se deu de imediato e ele perdeu o ano letivo. “Eu sei que deveria estar mais adiantado, mas infelizmente minha mãe teve que me transferir e eu acabei prejudicado”, disse o garoto, sem revelar o porquê da mudança.
A legislação brasileira determina que a criança deve ingressar no 1º ano do Ensino fundamental aos 6 anos de idade, para que, aos 14, esteja no 9° ano. O Ensino médio deve ser feito dos 15 aos 17 anos, para que não haja distorção idade-série. A Paraíba foi o segundo estado do Nordeste que mais conseguiu reduzir o problema (-29%), porém, ainda precisa avançar muito para corrigir a distorção, que é mais frequente entre os Alunos da rede pública de Ensino (Veja quadro adiante).
* Os nomes foram trocados em obediência ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Em Campina Grande, distorção atinge 18% dos alunos
No município de Campina Grande, a distorção idade-série atinge 18% dos alunos matriculados. A maior incidência é entre alunos do 6º ano, no qual o percentual de defasagem chega a 39%, segundo o Censo Escolar 2013. (Veja mais adiante relação das cinco escolas com os maiores percentuais de distorção idade-série). Um dos casos que precisam de atenção é o de Maria (nome fictício), 15, que está cursando o 5° ano do ensino fundamental na Escola Municipal José Virgínio de Lima. Segundo ela, o motivo do atraso foi a entrada tardia na escola, o que só aconteceu quando ela tinha 10 anos.
A estudante disse que tem o sonho de ser médica e por isso passou a se dedicar aos estudos. “Minha mãe não podia me colocar para estudar, por isso comecei tarde e fiquei atrasada. Agora, que tenho a oportunidade, estudo muito, pois meu sonho é ser médica”, disse a adolescente, que tem mais dois irmãos, os quais, segundo ela, estão na idade escolar correta.
Outra estudante campinense, Ana (nome fictício), 12, revelou que repetiu de ano, justificativa para o atraso. Ela está cursando o 5° ano do ensino fundamental. “Repeti o 2° ano e me atrasei.
Hoje em dia sou mais estudiosa porque quero ser enfermeira e sei que para isso tenho que estudar bastante”, comentou.
A diretora da escola onde Maria e Ana estudam, Maria do Carmo Barroso, reconheceu o problema da distorção idade-série e disse que é necessário um melhor apoio por parte da Secretaria de Educação municipal. A escola, localizada no bairro do Monte Santo, tem 110 alunos e 46% deles estão atrasados. “A distorção idade-série, na verdade, é consequência de uma série de fatores”, comentou.
A falta de interesse e acompanhamento dos pais foi outro problema apontado pela diretora para o atraso dos alunos.
“Infelizmente as crianças não têm a atenção que deveriam ter em casa. Os pais colocam os filhos na escola e pensam que a responsabilidade é só nossa. Já tivemos casos de alunos que levaram tarefa para casa e voltaram com os cadernos rasgados, em um claro exemplo de que, junto da família, eles não recebem orientação em relação aos estudos.
Segundo Iolanda Barbosa, secretária de Educação de Campina Grande, as principais ações para reduzir a distorção idade-série na cidade estão organizadas em três eixos: o programa Mais Educação, Projovem Urbano e Educação de Jovens e Adultos (EJA). “No Mais Educação, as escolas fazem a adesão ao programa e com isso recebem uma suplementação orçamentária. Também aderimos ao Pronatec para oferecer educação profissional aos alunos do EJA, fortalecendo as relações entre trabalho e educação, pois a maioria dos casos de evasão se dá devido à necessidade dos adolescentes em ingressar no mercado de trabalho”, explicou.


Programas tentam reverter atraso escolar
Através do programa Alumbrar, o governo do Estado tenta diminuir a distorção idade-série nas escolas públicas, segundo a gerente de Educação Infantil e Ensino Fundamental, Aparecida Uchôa. “O programa foi implantado este ano através de uma parceria do governo entre a Fundação Roberto Marinho e o Ministério da Educação e está voltado a alunos com idades entre 13 e 17 anos”, afirmou. De acordo com a gerente, o programa atende 150 turmas e cerca de 4,5 mil alunos nas 14 regionais de ensino.
O programa é voluntário, ou seja, nenhum aluno é obrigado a participar, mas os que desejarem serão contemplados. “O projeto é feito em cima da cultura local e é monitorado mensalmente pela Fundação Roberto Marinho”, afirmou. O conteúdo da formação consiste em trabalhar com a tecnologia da teleaula utilizada no projeto. Segundo Aparecida, o material produzido é voltado para a juventude. O programa é dividido em módulos, sendo três para o ensino fundamental e quatro para o ensino médio.
Sobre o problema da distorção idade-série, a gerente disse que a legislação permite que o aluno seja aprovado com pelo menos duas dependências. “Temos muitos alunos com dificuldades econômicas e que não têm acesso à leitura nem à tecnologia, e já chegam à escola com dificuldade”, declarou. Mas, segundo Aparecida, ainda não dá para abrir mão das avaliações. “Tudo que fica muito fácil parece sem gosto, podemos ajudar os alunos com o acompanhamento específico”, afirmou.
Na rede municipal de ensino de João Pessoa, a distorção idade-série diminuiu em média 4,1% no ano passado, segundo a Secretaria de Educação, que disse que, entre as capitais nordestinas, João Pessoa foi a que apresentou a terceira maior queda, ficando atrás de Fortaleza e Aracaju. No ensino fundamental I, a queda foi de 6,5% e no fundamental II foi de 2,5%.
De acordo com o secretário, a Prefeitura busca combater o problema através de três programas. O primeiro é o 'Acelerando o Saber', convênio firmado com a Fundação Volkswagen, que visa à qualificação de professores e o apoio às crianças que estão em defasagem. “Esse programa foi instalado no ano passado e já deu resultados positivos, com a redução do índice de distorção idade-série”, afirmou. As outras ferramentas para a correção do problema são o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, do governo federal, e a formação continuada que é realizada todos os anos, sempre com ênfase na distorção idade-série.

Reprovação é cultural, afirma especialista
O problema da distorção idade-série atinge todo o país, segundo Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann. “Temos uma questão cultural relacionada à reprovação. Nesse contexto, o Ideb ajudou muito, pois passou a ser um estímulo para diminuir as taxas de reprovação”, declarou. Segundo Faria, que critica a reprovação dos estudantes, é preciso desenvolver estratégias para garantir que o aluno se esforce mais e não tenha que repetir o ano. “O que observamos é que o aluno é reprovado e quando repete o ano pela segunda vez, tem tratamento semelhante”, afirmou.
Essa repetência sem 'novidade', de acordo com o especialista, pode facilitar o abandono dos alunos. “Grande parte dos alunos que repetiu de ano não tem aprendizado adequado no futuro”, destacou. Sobre a situação da Paraíba, Faria disse que o Estado está um pouco melhor, mas ainda está negativo em relação ao Nordeste. “Outro ponto que observamos é que a distorção idade-série está ligada a problemas socioeconômicos”, frisou.
O especialista disse que o aluno atrasado representa um desafio para o professor. “É difícil para o professor ter na mesma sala de aula um estudante de 12 e outro de 15 anos”, afirmou. Segundo ele, o mais importante é entender qual o tipo de contexto é mais adequado para aquele aluno. “A depender do atraso, as políticas podem ser diferenciadas”, explicou.
Sobre a distorção idade-série na rede privada de ensino, o especialista disse que, pelo fato dos pais pagarem uma mensalidade, muitas vezes a escola se sente meio insegura em reprovar o aluno, tem isso. “Nas escolas particulares a reprovação é usada como o último recurso, pois a direção teme que o pai tire o filho da instituição”, afirmou Faria. Segundo ele, essa lógica de evitar a reprovação deveria ser levada à rede pública.

Problema é evidente na zona rural
Os municípios do interior da Paraíba também apresentam altos índices de atraso escolar. Nas escolas da zona rural o problema se torna ainda mais evidente. No município de Serra Redonda, por exemplo, o índice de distorção idade-série chega a 38%, percentual considerado alarmante por especialistas em educação. A reportagem tentou contato com a prefeitura do município, mas não conseguiu retorno.
No município de Gado Bravo, a distorção idade-série é de 37%.
Em Mulungu, a 85 quilômetros da capital, o problema atinge 35,7% dos alunos, sendo maior nas escolas da zona rural. O município de Baía da Traição, no Litoral Norte, a cada 100 alunos, 34 estão com defasagem de dois anos ou mais. Outras cidades têm percentuais parecidos: Serraria (34,3%); Rio Tinto (33,3%); Nova Palmeira (31,6%); Camalaú (31,3%); e São José dos Cordeiros (30%).
O presidente da Federação das Associações dos Municípios da Paraíba (Famup), Tota Guedes, disse que, para corrigir o atraso escolar, os municípios devem fazer investimentos continuados na educação, priorizando a formação e capacitação de professores e buscando coibir a evasão escolar. “É necessário também oferecer melhores condições de trabalho aos profissionais, com escolas bem estruturadas e reformadas”, comentou.
Outro ponto apresentado por Guedes como importante no processo de correção da distorção idade-série é oferta de uma merenda de qualidade, tendo em vista que muitos estudantes dos municípios do interior, sobretudo os que estudam em escolas da zona rural, têm dificuldades econômicas em casa.
“Não podemos fingir que há alunos que só vão para a escola interessados na merenda escolar. Então, devemos aproveitar esse gancho para corrigir o atraso escolar”, finalizou.

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