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"Mesmo que em graus diferentes, quem atua profissionalmente no mundo da Educação no Brasil desconfia de que há algo errado com a estrutura e as práticas educacionais por aqui", afirma Ilona Becskeházy


Fonte: Revista Gestão Educacional
Mesmo que em graus diferentes, quem atua profissionalmente no mundo da educação no Brasil desconfia de que há algo errado com a estrutura e as práticas educacionais por aqui. Pouquíssimas pessoas têm a oportunidade de conhecer as escolas de países desenvolvidos e de compará-las com as brasileiras. Mesmo que tivessem, a amostra nunca seria suficientemente abrangente para formar uma moldura de análise robusta, que expusesse as diferenças de maneira clara. A adesão ao Pisa, desde o ano 2000, nos muniu de evidências para nos olhar no espelho e perceber que estamos com a cara amassada de tanto dormir no ponto.
Entretanto, nós, brasileiros, temos o mau hábito de nos sentir especiais, diferentes e/ou superiores ao resto do mundo. Reputo isso à percepção de que, pela vastidão e pela diversidade de nosso território, os recursos naturais daqui são não só abundantes, como inesgotáveis (embora tenhamos acabado de descobrir que essa suposição já não vale para a água). Assumindo essa premissa como verdadeira, achamos que não é necessário nos esforçar muito para garantir um futuro próspero: de nosso solo, ele surgirá. Além disso, fizemos, desde sempre, um pacto de sangue com a desigualdade: só estamos plenos se houver alguém para nos servir ou se tivermos à disposição um grupo de “diferentes” para desprezar ou espezinhar.
Essas três características (senso de superioridade, despreocupação com o futuro e opção pela desigualdade) andam, em geral, juntas. Mesmo que não andem, qualquer uma delas, isoladamente, já é antagônica à busca competente de soluções educacionais para garantir excelência e equidade. Dessa forma, se o Pisa nos diz que algo vai mal, malhemos o Pisa. Deus nos livre de reconhecer que temos algo a aprender com os países “hegemônicos”.
Enquanto isso, nesses países “centrais” que escolhemos para passar as férias, a preocupação com a melhoria permanente da educação e sua distribuição – com qualidade – para contingentes cada vez mais abrangentes de pessoas faz parte da realidade. E o que eles estão fazendo?
Em primeiro lugar, não têm mais que se preocupar com a universalização. Ela fez parte de sua história e é justamente por isso que são desenvolvidos. Em segundo lugar, trabalham colaborativamente com seus pares na busca de soluções eficazes, olhando para as avaliações internacionais comparativas com genuína curiosidade. O espírito crítico só vem depois, em geral para tornar o instrumento ainda melhor. Peça-chave da busca pela excelência e pela equidade para eles é um currículo exigente, detalhado e obrigatório: tanto os filhos dos médicos quanto os dos caminhoneiros têm que aprender equação do segundo grau no mesmo ano e com a mesma profundidade (eu sei, isso é incômodo para nossos padrões sociais). Com o objetivo de garantir o aprendizado de todos os tipos de alunos, o currículo a ser ensinado, assim como as diferentes formas de fazê-lo, são a base da formação inicial e continuada dos docentes. Diferentes instrumentos de avaliação dão às autoridades educacionais e à sociedade a capacidade de monitorar se o aprendizado almejado está mesmo acontecendo (não, o professor não tem autonomia para decidir a quem dá a oportunidade de aprender). Outra característica desses países é que o funcionamento das escolas é garantido durante todo o ano por meio de estabilidade operacional e institucional que permite às famílias a tranquilidade de contar com a escola: os recursos materiais e humanos estão lá. Há variações em tempos de crise? Em muitos casos, sim, mas em uma amplitude e em um patamar muito diferentes dos nossos.
É claro que esses países, mesmo desenvolvidos econômica e socialmente, apresentam diferenças consideráveis entre si e novos desafios a abordar (com base no que foi exposto anteriormente). Eles trilharam caminhos difíceis antes de nós e puseram seus sistemas de pé. Nós ainda divagamos em torno de problemas superficiais quando nossos alunos saem do sistema escolar sem conseguir fazer uma redação básica de três parágrafos sobre um tema atual.
Nesse contexto, quando se discute currículo, é para aprofundá-lo, torná-lo mais exigente para todos os alunos e detalhado para os professores, de maneira que não haja muito espaço para fugir dele. Aqui fazemos de tudo para nos esquivar do assunto e, quando ele se torna inevitável, tratamos de escolher metas que não assustem ninguém, como alfabetizar os alunos depois de, no mínimo, quatro anos de vida escolar.
Os dirigentes dos países “imperialistas” também podem cometer erros ou fazer cortes nos orçamentos sociais, mas a genuína preocupação com o futuro de suas populações garante honestidade intelectual nas necessárias correções de rumo

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