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Em entrevista, Fernando Abrucio fala sobre a pesquisa que está desenvolvendo sobre a formação dos professores

Mariana Mandelli, do Todos Pela Educação
A qualidade da formação de professores no Brasil depende da boa articulação de um tripé: universidade, redes de ensino e escolas. A conclusão é do professor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) Fernando Abrucio, autor de um estudo sobre o tema publicado no sexto relatório De Olho nas Metas, do Todos Pela Educação (TPE), lançado em julho. Em entrevista ao TPE, Abrucio afirma que há algumas universidades liderando bons processos de articulação entre os três pilares. O estudo deve ser concluído até o final deste ano, mas os resultados preliminares já estão disponíveis para apreciação.
Para baixar o relatório com o estudo, clique aqui.
Para ver um vídeo sobre a pesquisa, clique aqui.

As pesquisas apontam um diagnostico conhecido na Educação: a formação que as universidades brasileiras oferecem para os futuros professores tem muitos problemas. Como fazer, definitivamente, essa discussão com a academia? O MEC deveria tomar a frente do debate?
Já existem universidades fazendo um bom trabalho na formação de professores. É preciso fortalecer esses casos e disseminá-los. Temos boas experiências na PUC do Paraná e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo. Exemplos assim podem ser espalhados por todo o País. Além disso, essas universidades têm que participar do processo de mudança do currículo. Quem também tem que participar é quem oferece o serviço final, sobretudo aos alunos mais pobres do País: as redes de ensino. Deve haver uma articulação maior entre as redes de ensino e as universidades. De alguma forma, as redes deveriam oferecer mecanismos às universidades para que elas possam mudar o seu próprio currículo. É possível fazer isso.

E quanto ao papel do MEC?
Há formas diretas e indiretas de o ministério mexer com isso. O Pibid (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) é um exemplo disso. Se tivéssemos o Pibid com uma prática ainda mais ampliada do que existe hoje, já teríamos um impacto grande na formação dos professores. Além disso, o MEC poderia criar editais para que as universidades criem centros de excelência em didática e metodologia de ensino. Assim, você começa a incentivar que a formação caminhe nessa linha. Ou seja, existem vários mecanismos em que universidades e ministério, de maneira mais ampla ou não, modifiquem a visão curricular. A própria mudança da base curricular da Educação Básica terá impacto na universidade. Não tem solução única, são várias soluções conjuntas. É preciso aproveitar as boas experiências e criar mecanismos que incentivem a universidade a mudar o currículo de formação. Se não houver isso e vier apenas de cima para baixo, não acontecerá a mudança. É preciso fazer a mudança de pressão, de fora para dentro, mas também internamente, aproveitando o conhecimento da própria universidade.

Sua pesquisa mostrou que a bibliografia sobre formação docente é bastante vasta e inclui, como se sabe, embates ideológicos presentes na Educação como um todo. Como fazer para que haja um alinhamento mínimo? É possível?
Eu acho que a pesquisa sobre formação docente no Brasil carece de dados. Faltam dados empíricos, salvo raros pesquisadores e estudos muito localizados. Ou seja: é uma área muito fragmentada e não se tem uma visão do sistema todo e daquilo que eu chamo de tripé formador. Se conseguirmos fazer com que as universidades olhem mais sistematicamente o problema, formando os tais centros de excelência de pesquisa e da própria formação, seria ótimo. É preciso ter em mente que o problema da formação de professores envolve ações institucionais e mecanismos de indução – estes têm dado certo na política educacional brasileira.

O que seriam mecanismos de indução?
O Pibid, por exemplo, é um. Programas de mentoria em larga escala também são outro exemplo. A definição, pelas próprias redes públicas, de demandas próprias para a universidades, também seria. Veja, se temos a maior parte de nossos professores hoje se formando em instituições privadas de Educação Superior e no período noturno, as redes de ensino devem se articular com essas faculdades para criar, no futuro, uma oferta de professores de alta qualidade.

O que falta na profissão de professor hoje, no Brasil?
Qualquer processo de mudança na formação docente passa, evidentemente, pela profissionalização da atividade. É preciso haver atratividade na carreira e uma formação profissionalizante, no sentido de que o professor tem que ter instrumentos com que permitam a ele efetivamente dar aulas. Muitos, hoje, na conseguem. Além disso, o professor precisa ter condições dentro da escola para atuar. Se não tivermos a profissionalização da atividade do professor, todo o processo de mudança da Educação brasileira terá sido um trabalho amador.

A atividade do professor, além de desvalorizada, muitas vezes esbarra em áreas que fogem do domínio da Educação, como a violência no entorno das escolas, por exemplo. O que esperar do poder público nesse sentido da valorização?
A valorização profissional passa pela clareza que a sociedade precisa ter da importância da atividade de professor. Precisamos continuar a repetir isso. Para ter profissionalização, precisamos ter carreira. É óbvio, precisamos de salário e de um programa de médio a longo prazo, que inclusive está colocado no Plano Nacional de Educação, que aproxime a carreira docente de outras. Existem fatores também que devem ser melhorados, como formação continuada e estágio efetivamente probatório. Também devemos considerar que o professor atuar prioritariamente em uma escola, apenas. Sem isso, fica muito difícil atingir a valorização. Quanto a outras políticas públicas, é claro que existem temas de impacto que extrapolam os limites da atuação da Educação, como a questão da violência. Mas acho que, se tivermos uma escola mais estruturada, a violência vai ter menos efeito. Não só isso: se tivermos um processo mais sistêmico na Educação brasileira, ela vai ter mais capacidade de se articular intersetorialmente.
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