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Em entrevista, ex-ministro Renato Janine Ribeiro falou sobre as perspectivas da carreira docente e as dificuldades financeiras durante sua gestão


Fonte: Zero Hora (RS)



Quando assumiu o Ministério da Educação, em abril, o filósofo Renato Janine Ribeiro tornou-se um raro integrante do governo a colher a aprovação de largas fatias da sociedade brasileira. Intelectual respeitado, com uma extensa carreira dedicada à Educação, ele conferia credibilidade e perfil técnico a um setor-chave da administração e fazia pensar que talvez fosse para valer o slogan “Pátria Educadora”, eleito por Dilma Rousseff como lema de seu segundo mandato.Na semana passada, depois de menos de seis meses no cargo, Janine Ribeiro foi demitido sem cerimônias pela presidente, cedendo o lugar a Aloizio Mercadante, removido da Casa Civil.
Sua melancólica saída ocorreu devido a negociações feitas pela presidente, com farta distribuição de cargos ao PMDB, para tentar melhorar as relações com a base no Congresso.
Na entrevista a seguir, Janine Ribeiro fala sobre seu afastamento, aponta caminhos para a Educação brasileira e alerta sobre um perigo: o apagão de Professores, possível resultado da falta de atratividade da carreira Docente.
O senhor foi apanhado de surpresa pela saída ou já notava sinais de que isso ocorreria?
Fui surpreendido. Sobre notar sinais ou não, o Brasil está em um momento de crise, então é claro que, em qualquer momento, poderia haver uma surpresa. Mas de fato não pensei que isso fosse acontecer no Ministério da Educação, até porque a presidente Dilma garantiu o tempo todo que o Ministério da Educação estava blindado de qualquer pressão política. A minha própria substituição pelo ministro Aloizio (Mercadante) deixa claro que esse não é um ministério que vá ser loteado politicamente.
Por que o senhor acredita nisso?
Porque ele não foi loteado politicamente em nenhum momento nestes anos. Você pode ter tido posições inferiores que pertençam a militantes, mas todas as lideranças do ministério foram escolhidas pelo mérito e sempre adotaram políticas que podemos chamar de republicanas. No meu caso, passei esse tempo lá sem jamais receber um pedido para contratar ou chamar quem quer que seja por razão partidária.
Mas sua saída não ocorreu para acomodar interesses políticos?
Depende do que você chama isso. Todo mundo sabe que houve um movimento para tirar o ministro Mercadante da Casa Civil, e ele que exercia a função de principal ministro do governo, veio para a Educação, cargo que já tinha exercido. Não adianta procurar pelo em ovo. É isso, simplesmente.Ao ser anunciado como ministro, o senhor foi aclamado pelo Brasil. Nas entrevistas da época, mostrava-se cheio de planos e projetos. Mas enfrentou cortes de verbas e greves e saiu depois de pouco tempo.
Ficou decepcionado?
Não exatamente. Saí um tanto chocado com a atitude dos grevistas (nas universidades federais), que adotaram uma política de indiferença aos problemas que o país está vivendo. Houve movimentos que fizeram greve pedindo coisas que qualquer pessoa sabe que o Brasil não pode pagar. O principal problema é que você tem uma dificuldade de dialogar com pessoas que já declaram greve antes da negociação e que exigem certas coisas, como é o caso da Andes (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior). No último documento, exige que o MEC reduza as verbas para a Educação básica e aumente para o Ensino Superior. Nunca tinha visto isso, exigir a redução na Educação básica.
Estar dentro do governo federal foi como o senhor imaginava?
Foi mais difícil. Você encontra uma equipe muito qualificada, mas em um momento de falta de dinheiro, que é um dado notório. E isso se choca com uma situação em que o Brasil passou os últimos 10 anos com investimento enorme na área da Educação, com expansão de campi em todas as partes, com criação de novas universidades. Então, você chega na hora em que vem a crise, depois de 10 anos, e as pessoas não estão acostumadas a lidar com esse problema.
Os entraves que o senhor encontrou foram principalmente fruto da redução de recursos?
Principalmente. Mas você não quer falar de Educação? Ou sua pauta não é Educação? Porque o que está me preocupando é o desinteresse da imprensa pela Educação. Você não é o primeiro nem o segundo, mas parece que ninguém quer falar sobre Educação. Os jornais dizem nos seus editoriais que Educação é muito importante para o Brasil, mas, quando vai se discutir Educação, eles não querem.No cenário de dificuldade financeira, seria de repensar a distribuição que se faz hoje entre recursos que vão para a Educação básica e para a Superior (que recebe mais dinheiro)?Nada disso é fácil. Os recursos estão carimbados há muito tempo. Neste ano, houve cortes em todas as áreas. Mas o Brasil tem de deixar muito claro que a prioridade zero tem de ser a Educação básica. A Educação básica tem um problema: os mais carentes têm pouco peso político. Um pai ou uma mãe de criança pobre, sem instrução, tem muito menos poder para fazer pressão do que alguém que tem o filho numa faculdade de Medicina. Nesse caso, quem já tem uma vantagem social aumenta a vantagem social. E quem não tem, alarga a distância.
O senhor acredita que, apesar do período curto no ministério, conseguiu deixar um legado?
Olha, dizem que sim. As pessoas dizem que o lançamento da base nacional comum (curricular) foi importante, que a ênfase na questão da Alfabetização e da Educação básica foi importante.Hoje parece haver um desinteresse pelas licenciaturas e cursos de pedagogia, que são exatamente os que formam Professor.
Esse é um desafio?
Aí são vários desafios que vêm junto. À medida que os Professores vão se aproximando da idade da aposentadoria, corremos o risco de ter nos próximos anos um vazio muito grande, um apagão de Professores. Sobretudo a Educação infantil e a Alfabetização estão muito desvalorizadas. E é aí que você tem o momento definitivo. A criança que até os três, quatro anos, não teve uma Educação decente, não é capaz de formar tantas sinapses quanto quem teve um ambiente melhor. Ela vai carregar um problema. Um pouco depois disso, quem não se alfabetizou até os oito anos, também vai carregar um problema. Temos uma dificuldade séria de formação de Professores aí.Mesmo que se consiga melhorar os cursos de formação de Professores, ainda vai existir o problema de tornar a carreira atrativa.Exatamente. Tem o lado salarial, que tem de ter um aumento real. Uma das metas do Plano Nacional de Educação é que o Professor da rede básica ganhe a média do que ganha uma pessoa com a mesma Escolaridade. Hoje, ele ganha bem menos. Depois tem o fato de que esses cursos foram desvalorizados, às vezes são demandados por quem já tem desempenho ruim no Enem. E você tem o fato de que o ambiente nas salas de aula não tem sido convidativo. Fica uma carreira que é complicada para atrair pessoas. E no horizonte disso aparece o risco do apagão. Imagina que daqui a cinco ou 10 anos comece a faltar Professor.
O senhor vê esse apagão de Professores como uma perspectiva real?
É uma perspectiva real. Como se pode enfrentar isso? Uma coisa é melhorar a formação de Professores. A outra é: o Brasil vai ter de gastar mais dinheiro em Educação. Vai ter de pôr mais dinheiro. E o Brasil hoje está super-relutante em pagar um centavo a mais de imposto que seja. Mas vai ter de colocar mais dinheiro. A estratégica que eu tinha desenhado era: vamos mostrar que a gente pode entregar coisas boas, dar resultados bons, mesmo com pouco dinheiro, e vamos mostrar então que o dinheiro que vier para a Educação a gente vai gastar bem.
O senhor pensa em um imposto que reverta especificamente para a área?
Não estou falando qual imposto. Não falei CPMF, não falei Cide, não falei nada. O que estou dizendo apenas é o seguinte: o Brasil vai ter de colocar mais dinheiro em Educação. Coloca-se mais dinheiro em Educação de duas formas: ou você tem algo que vem como um maná dos céus, que seria o pré-sal, ou paga imposto. O pré-sal, se o petróleo estivesse a US$ 150 o barril, ia estar ajudando muito a Educação. Com o petróleo a US$ 50, a única saída é imposto. E tem outra coisa. Se o petróleo chegar a US$ 200 amanhã, não há uma garantia de que vai ficar em US$ 200 a vida toda. Você vai precisar sempre ter uma base tributária. Mas como faz isso quando há uma convicção na sociedade de que o dinheiro é desperdiçado pelos governos?
O senhor apresentou essa ideia sobre impostos?
Não. Pela razão de que não adianta nem tentar discutir isso com a sociedade, enquanto não mostrar que pode fazer uma coisa boa. Ninguém vai acreditar.A experiência no governo mudará de alguma forma seu ponto de vista acadêmico?Já fazia análise política. Muita coisa do que dizia se confirmou. Outras, não. Quer dizer, aprendi um pouco de modéstia. Essa experiência deixa muito claro é que a maior parte dos analistas políticos do Brasil é muito simplista nas suas análises. Apresentam os problemas como se fossem de solução muito fácil. E no governo você vê que não é nada fácil. Faz 11 meses que o candidato Aécio (Neves) perdeu a eleição, 11 meses que ele está inconformado com isso e até hoje não existe uma base política antagônica ao governo que tenha alguma proposta concreta. A grande esperança da oposição para tirar o governo é o presidente da Câmara (Eduardo Cunha), que está sendo acusado de coisas muito sérias. A solução que há no horizonte não é simplista, não dá para fazer análise simplista.
O senhor segue apoiando o governo?
Considero que a presidente foi eleita legitimamente. Abreviar esse mandato é piorar, não melhorar as coisas. E, em segundo lugar, ela tem intenção de melhorar o Brasil, acredita mesmo na igualdade de oportunidades, que para mim é um valor básico.Mas isso não impede o senhor de ser crítico. Em entrevista ao jornal O Globo, o senhor mencionou que o PT apostou mais no consumo do que na ética.Sim, mas a manchete foi sensacionalista (o título da matéria, publicada na quarta-feira, é “O PT apostou mais no consumo do que na ética, diz ex-ministro”). Se você lê o texto, é o que digo há anos: o PT fez um trabalho ético importante, mas esqueceu de dizer que era um trabalho ético. Fez um trabalho de redução da miséria gigantesco, um dos trabalhos mais dignos que já houve na história do Brasil, mas esqueceu de dizer: esse é um trabalho ético. O PT deixou como se fosse só uma coisa de consumo. Com isso, deixou o terreno da ética disponível para uma oposição que não é muito a fim da redução da desigualdade.

Reportagem publicada somente em veículo impresso
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