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"Concurso para professor de matemática no Rio reprova 96% dos candidatos", afirma Antônio Gois

Fonte: Blog do Antônio Gois - O Globo Online


Em agosto deste ano, a secretaria municipal de educação do Rio abriu concurso para preencher 150 vagas para professores de matemática, oferecendo salários de R$ 4.410,31 (R$ 4.974,46 com benefícios) para 40 horas semanais. Além das provas objetivas e discursivas, os candidatos precisavam enfrentar um teste prático de sala de aula. Uma das tarefas exigidas nessa atividade foi “desenvolver a construção do conceito de multiplicação ou divisão de fração". Foram 2.826 inscritos, ou 19 candidatos por vaga. Mas só 109 foram admitidos, 41 a menos do que a demanda. Em resumo, 96% dos candidatos foram reprovados.

A evidência de que temos uma grave deficiência na formação de professores não é restrita ao Rio, e o problema não começa nas universidades. No estudo “Quem quer ser professor?”, Paula Louzano, Valéria Rocha, Gabriela Moriconi e Romualdo Portela identificaram que 50% dos alunos de cursos de pedagogia vinham de famílias onde a escolaridade da mãe era igual ou inferior ao primário completo. Na engenharia, essa proporção caía para 19%. Analisando notas de candidatos do vestibular da USP, eles constataram também que, em 2010, o candidato de melhor desempenho que optou pela licenciatura em matemática ficaria longe do último aprovado em medicina. Descobriram ainda que 45% desses alunos que entraram na USP em matemática disseram que não teriam escolhido essa carreira se tivessem a chance de entrar em um curso mais seletivo.

Esses dados ajudam a explicar a constatação de outro estudo, da pesquisadora Rachel Pereira Rabelo. Ela identificou que, dos alunos que ingressaram em 2009 em licenciaturas em matemática, apenas 34% concluíram o curso. Desses que se formam em matemática e também em licenciaturas de física, biologia e química, a maioria acaba fugindo da sala de aula e procura outras profissões.

Esse grave problema seria amenizado se tivéssemos pelo menos a certeza de que a formação recebida por esses profissionais que persistem na carreira fosse adequada aos desafios que enfrentarão na prática. O alto percentual de reprovação no concurso da prefeitura indica que estamos longe disso. Outros estudos já haviam identificado o problema da má formação no Brasil, criticando, em muitos casos, o excesso de disciplinas teóricas quando comparado com a formação prática do docente. (Um dos mais citados estudos nessa linha é "Formação de professores no Brasil: características e problemas", da pesquisadora Bernadete Gatti.

Isso tudo só reforça que é preciso enfrentar urgentemente dois gargalos estruturais da educação brasileira: aumentar a atratividade da carreira docente (o que significa também salários maiores) e melhorar a formação de professores.

Sem esse passo sério, continuaremos a nos deparar com situações como a que o pesquisador Ernesto Martins Faria, da Fundação Lemann, encontrou no portal de devolutivas pedagógicas do Inep (órgão do MEC). O site traz exemplos de questões aplicadas aos alunos em testes nacionais, com comentários pedagógicos e informações sobre índices de acerto. Uma delas perguntava: “No Brasil, 3/4 da população vive na zona urbana. De que outra forma podemos representar esta fração?”. As opções eram 15%, 25%, 34% ou 75%. Somente um terço dos alunos ao final do ensino fundamental respondeu corretamente 75%, e um percentual maior (38% dos estudantes) assinalou a opção C. Ernesto Faria desconfia que, provavelmente, muitos juntaram os números 3 e 4 da fração e chutaram como resposta 34%.

O papel da escola não pode se resumir ao ensino de matemática ou português. Mas, quando dois terços dos alunos erram até uma questão básica como essa, não há dúvida de que temos um problema grave. E os professores são parte essencial da solução.
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