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Vencedora do prêmio Educador Nota 10, professora de Joinville une conhecimentos históricos aos saberes da comunidade
Guardiões do patrimônio local

Todos Pela Educação

Letícia Larieira

Aliar o currículo escolar a saberes históricos locais: esse foi o ponto de partida para que a professora de história Ângela Maria Vieira, da Escola Municipal Maria Regina Leal, em Joinville, SC, desenvolvesse o projeto “Os Guardiões dos Sambaquis”. A iniciativa, que expandiu as atividades da escola para a comunidade local, rendeu à Ângela o prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, na categoria história. O projeto foi escolhido por Antônia Terra, doutora em história social pela Universidade de São Paulo e selecionadora do prêmio.
Patrimônio cultural de Joinville, os sítios arqueológicos são compostos por diversos sambaquis, montes compostos por fósseis do período pré-colonial. Ângela se baseou nos conceitos acerca dessas formações históricas para desenvolver o projeto, relacionando-o à base curricular, que previa o estudo do período pré-colonial brasileiro e os povos da época.
Embora um assunto recorrente na cidade, a professora notou que os alunos não sabiam o que eram os sambaquis, ainda que a escola fosse localizada perto de quatro deles. “A minha ideia era aproximar o currículo e a história geral com a história local e a vida do aluno, para que assim ele entenda melhor os conceitos e se relacione com o próprio conhecimento histórico”, afirma Ângela.
Criando parcerias e descobrindo métodos
Depois de perguntar aos estudantes o que eles sabiam sobre os sambaquis, foi a vez dos familiares: Ângela elaborou com a turma uma entrevista, que os alunos puderam levar para casa, para descobrir o que a comunidade sabia sobre o tema. Depois de obtidas as respostas, a professora propôs que os alunos trabalhassem por um enfoque científico: fariam um projeto de pesquisa sobre o tema. Foram levantadas questões relacionadas à preservação dos sambaquis e do meio ambiente, a construção do conhecimento histórico, a defesa do patrimônio local e o trabalho arqueológico.
Para enriquecer o repertório e as fontes de informação dos alunos, a educadora também fez uma parceria com o Museu Arqueológico do Sambaqui, em Joinville. Além de visitar o museu, os estudantes puderam conversar com especialistas e assistir palestras, além de ter contato direto como materiais ósseos e até esqueletos em sala de aula. Foi também organizada uma excursão para um sítio arqueológico da região, onde os estudantes puderam ver os sambaquis de perto.
Para complementar a pesquisa, os jovens também procuraram textos e reportagens em jornais antigos sobre o tema, confrontando essas informações com o que estavam aprendendo no dia a dia. Ao longo do processo, eles escreveram textos sobre as suas descobertas e puderam tirar fotografias dos artefatos, documentando todos os passos do projeto e colaborando com a construção da documentação histórica.
Ao final do processo, os alunos tornaram-se produtores de conhecimento: junto com a professora, organizaram na escola uma exposição sobre os sambaquis, chamando toda a comunidade local a participar do evento. Reforçando o trabalho de conscientizar a população, os jovens produziram um marca-página com informações sobre os sambaquis, o endereço do museu e fontes interessantes de pesquisa.
Valorização do processo
Durante todo o projeto, os alunos não foram avaliados apenas por meio de provas ou trabalhos: Ângela levou em consideração a participação nas aulas, produções textuais, engajamento durante as atividades e pesquisas relacionadas ao tema para avaliar os alunos. “Sempre existe aquele aluno que se desenvolveu muito durante a iniciativa, mas quando sabe que vai ser avaliado ele trava e acaba não conseguindo um bom resultado”, ela diz.
Deixando claro que levaria em consideração o conhecimento adquirido ao longo do tempo, a educadora deu liberdade para os alunos se auto-avaliarem. Ângela ainda completa que, para ela, a “avaliação mais natural e abrangente tem um valor maior”.
Aliados da tecnologia
Com apenas duas aulas por semana, a professora Ângela dispunha de pouco tempo para desenvolver o projeto com seus alunos. Buscando dar continuidade às pesquisas durante o resto da semana, a educadora resolveu criar um grupo online em uma rede social.
Engajados em sala de aula e também virtualmente, a educadora afirma que a ferramenta foi muito útil para o andamento do projeto. “No grupo postávamos tudo o que era produzido, inclusive a descrição de todos os passos; acabou que o espaço tinha bastante conteúdo e qualquer um podia consulta-lo”, conta a professora.
Além disso, Ângela defende que esse canal de comunicação facilitou também as aulas. Por meio do grupo virtual, os alunos eram informados do que aconteceria no próximo encontro e assim podiam se preparar. Segundo a professora, “os estudantes pesquisavam os temas das aulas seguintes”.
Sobre as novas tecnologias, Ângela não têm dúvidas: é preciso incluí-las no processo pedagógico, atraindo mais a atenção dos jovens para a escola. “Acredito que usar a tecnologia é importante, ainda que o ambiente educacional ofereça um pouco de resistência à ela; é preciso mostrar que o uso promove possibilidades de aprendizagem também e os professores podem se inserir neste processo”, afirma Ângela.
Com a palavra, a especialista
Antônia Terra, selecionadora do projeto, destaca a forma como a professora Ângela relacionou o currículo escolar com os saberes e a história local. “Ela fez um trabalho relevante porque conseguiu estabelecer relações entre o presente e o passado, aprofundando estudos tanto do modo de viver de povos antigos, como tratar problemas enfrentados na atualidade”.
Para a selecionadora, o projeto também apresenta aspectos positivos quanto à sua metodologia, que envolveu diferentes processos científicos e prezou pelo trabalho em conjunto. Segundo ela, “grande parte das atividades foi coletiva, e a professora avaliou as conquistas dos alunos com base nesses materiais”. Além disso, a educadora também ressalta que o processo metodológico foi bom nas suas duas etapas; tanto no levantamento de informações no senso comum como no aprofundamento do conhecimento dos alunos.
Por fim, mais um ponto positivo da inciativa de Ângela foi extrapolar os limites da escola, buscando abordar diversos temas relacionados à comunidade. De acordo com Antônia, “a professora esperava que os alunos compreendessem a importância da memória, valorizassem a preservação dos sítios arqueológicos e conhecessem os fatores que colaboravam para sua destruição, como a expansão imobiliária e o desenvolvimento urbano”.
Uma historiadora apaixonada por Educação
Quando ingressou na Faculdade de História de Joinville, atual Univille, aos 18 anos, Ângela Maria Vieira não pensava em ser professora. Na época, quase uma adolescente, a estudante gostaria de cursar sociologia, mas também era apaixonada por história, optando pelo curso.
Foi somente no último ano da faculdade, depois de cumprir o estágio em sala de aula e ter contato com alunos e o ambiente escolar, que Ângela decidiu ser professora. De acordo com a professora, as especializações lhe deram embasamento para desenvolver o projeto “Guardiões dos Sambaquis”: Ângela é pós-graduada em história cultural e em história do Brasil.
Quando conta sobre o que mais gosta na profissão, a docente ressalta a interação com os jovens. “Atualmente a escola está tão aquém de outras formas de entretenimento, que quando proponho uma temática e os alunos interagem com ela, sinto que atinjo o auge da minha realização”, afirma.
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