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Por - Nathalia Pinto - nathalia.pinto@folhadirigida.com.br

Ano passado, a presidente Dilma Rousseff proferiu em um discurso, um slogan que talvez tenha virado chacota: "Brasil, Pátria Educadora." A afirmação reverbera até hoje nos quatro cantos do país, sobretudo diante do cenário crítico pelo qual a educação brasileira passa. Prioridade, segundo Dilma Rousseff, o Ministério da Educação sofreu corte de R$9 bilhões, trocou de ministro, vivenciou greves estudantis e de professores, alterou regras dos programas considerados carros-chefe, dentre tantas outras medidas polêmicas.

O que fazer para tirar a educação desse caos na qual ela se encontra? Na tentativa de responder essa questão, os educadores Antonio Freitas e Ana Tereza Spinola escreveram o artigo intitulado "Brasil Pátria Educadora: Será? Uma proposta de solução viável". Nele, os especialistas abordam e questionam os principais problemas da educação no país.

Um dos mais graves, segundo o educador, reside no fato da educação básica, assim como a pública, serem de baixa qualidade. Logo, a formação inicial do aluno acaba sem estrutura, devido à ausência de laboratórios, por exemplo. "De fato, o que há no Brasil é uma discriminação, onde para o aluno pobre fica mais difícil crescer na vida, por causa da educação de qualidade ruim. É um grande defeito e chega a ser um pecado, porque o fato de uma pessoa ser pobre ou rica não quer dizer que seja mais ou menos inteligente", defendeu Antonio Freitas, que é membro da Academia Brasileira de Educação e integrou o Conselho Nacional de Educação.

Outro problema, segundo ele, diz respeito à formação continuada de professores da educação básica, apontada pelo especialista como a questão mais emergencial no país. "Em um hiato de dez anos, a tecnologia mudou. Não existia telefone celular, o iPad. Temos que deixar o professor de 40, 50 anos, apto a utilizar a tecnologia disponível. Para os estudantes é fácil, pois eles aprendem até intuitivamente. Associado ao treinamento do docente, temos que remunerá-lo bem e criar uma respeitabilidade", disse o educador, que também é pró-reitor de Ensino, Pesquisa e Pós-Graduação da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Nesta entrevista, Antonio Freitas fala, ainda, sobre o Plano Nacional da Educação (PNE), esquecido pelos políticos, e também sobre ensino técnico como um ponto positivo e agregador na formação dos estudantes. Além disso, não deixou de criticar o ministro da Educação. "Não vemos o ministro dentro de uma escola nem para fazer charme. Ele poderia passar defronte da Universidade Nacional de Brasília (UNB) e tirar uma foto. Acho que ele tem medo. O ministro possui a obrigação de ir à Roraima, aos locais mais necessitados e conhecer a realidade do Brasil."

FOLHA DIRIGIDA - Em artigo, o senhor e professora Ana Tereza Spinola destacam que os problemas educacionais do país estão longe de uma solução significativa e definitiva. Por que isso acontece?
Antonio Freitas - Principalmente porque a educação básica e a educação pública têm uma qualidade ruim. No lugar em que se começa a formar a cultura do jovem, a biblioteca é defasada, não há laboratórios e nem investimento na estrutura. Os colégios de elite, como São Bento, Santo Inácio e Santo Agostinho, aproximam-se de boas escolas porque têm laboratórios de Física, computação. Fora isso, servem a uma classe mais abastada. De fato, o que há no Brasil é uma discriminação, onde para o aluno pobre fica mais difícil crescer na vida, por causa da educação de qualidade ruim. É um grande defeito e chega a ser um pecado, porque o fato de uma pessoa ser pobre ou rica não quer dizer que seja mais ou menos inteligente.

O que o senhor considera fundamental para que o Brasil siga uma trajetória que faça do país realmente uma pátria educadora?
O que teríamos que fazer é investir em infraestrutura escolar, na formação do professor e aumentar a remuneração dele. De modo geral, o fato de os docentes ganharem mal significa uma profissão que atraia pessoas menos qualificadas. No Nordeste, Centro-Oeste, o professor recebe menos do que um salário mínimo. Se tivermos uma educação boa, podemos ter pessoas como Barack Obama, o Reverendo Martin Luther King Jr, que modificaram o país simplesmente porque tiveram educação.

A seu ver, qual a questão mais emergencial em relação à educação no Brasil? Por quê?
A questão mais emergencial é a formação continuada de professores da educação básica. Em um hiato de dez anos a tecnologia mudou. Não existia telefone celular, o iPad. Temos que deixar o professor de 40, 50 anos, apto a utilizar a tecnologia disponível. Para os estudantes é fácil, pois eles aprendem até intuitivamente. Associado ao treinamento do docente, temos que remunerá-lo bem e criar uma respeitabilidade. Na Finlândia, por exemplo, os melhores alunos querem ser professores. No Japão, os docentes são extremamente respeitados. Se ele é mal remunerado e trabalha em condições insalubres, não é respeitado. Primeiro: pagar o salário adequado. Qual a remuneração adequada? Pega o salário médio de um funcionário público, médico, fisioterapeuta: esse seria o mais ou menos adequado. Nada ocorre de hoje para amanhã, porém, em um período de dez anos, é preciso modificar o perfil do docente brasileiro. Mais uma vez, envolve treinamento e remuneração. Não pode o professor ganhar menos do que o motorista do próprio governo.

Como solucionar este ponto que o senhor apresentou como o mais emergencial?
Quando o aluno de 15, 16 anos chega no ensino médio, abandona a escola porque é chato. A evasão é de 50%. Seria mais barato ter, no máximo, 1.000 horas de ensino técnico. Dessa forma, com menos de 1.000 horas de ensino, todos os estudantes do ensino médio teriam acesso a esta educação que possibilitaria a ele aprender a consertar rádio, televisão, geladeira, celular, entre outros produtos. E eles sairiam formados com uma profissão. Os que gostam de estudar, poderiam fazer vestibular e ingressar na universidade. Agora, seria importante que as faculdades se assemelhassem às de outros países, onde realmente são propostos desafios e os alunos não realizam só atividades de final de semana ou só estudam para passar na prova. Poucas universidades brasileiras são exigentes com o aluno.

Por quê?
A educação superior não é só aprender Física, Jornalismo ou Matemática. É o aluno também ser desafiado, para ter disciplina e estudar duas, três, seis, dez horas por semana, o que for necessário. Nem todos gostam. Então, 80% das pessoas ficam na educação básica e 20% realmente fazem um curso superior. E não quer dizer que o salário daqueles que possuem educação básica será pior que o daqueles que possuem ensino superior. Um profissional da área de computação ganha parecido com um administrador. É simples explicar às pessoas: não vale a pena contratar uma linha de crédito pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) porque o Fies em si é um truque. Uma faculdade que era R$300, R$400 por mês, começou a cobrar R$1.200. O governo empresta o dinheiro, mas, quem assume a dívida é o aluno. Ao se formar, tem que pagar. Só que, ao invés de pagar a base de R$300, paga a de 1.200. O estudante contrai uma dívida imensa e incapaz de quitar. Seria melhor ele cursar uma escola técnica e, com o dinheiro, comprar uma casa e, caso desejasse, realizar um curso superior.

Além desse ponto que o senhor citou, há outras questões preocupantes quanto à educação no país?

Existe o Plano Nacional da Educação (PNE), centrado na esperança de termos o pré-sal abundante. No final do decênio, 10% do Produto Interno Bruto (PIB) seria aplicado em educação justamente para recuperar essa dívida com os mais pobres. O primeiro PNE foi um lixo. Foram cumpridos 20% por acaso: com ou sem o plano, ia ocorrer de qualquer forma. Esse plano está em Brasília e as pessoas pensam, de fato, se há ou não impeachment, se o Eduardo Cunha fica ou não. Ninguém trabalha para um Plano que levou cinco anos para ser aprovado. Ou seja, realmente chegar ao local do jogo. Onde é que a bola rola? Dentro da escola. Recentemente, três meninas do interior receberam medalha de ouro em Matemática. São mentes de qualidade jogadas no lixo. É um pecado que infelizmente nosso governo não liga, porque existe um milhão de formas de solucionar o problema.

Como?
A primeira é o interesse. Não vemos o ministro dentro de uma escola nem para fazer charme. Ele poderia passar defronte da Universidade Nacional de Brasília (UNB) e tirar uma foto. Acho que ele tem medo. O ministro possui a obrigação de ir à Roraima, aos locais mais necessitados e conhecer a realidade do Brasil. Porque a realidade do Brasil não é o Rio de Janeiro, São Paulo. Cada região: Norte, Nordeste e Sul deveria ter um tratamento diferenciado: plantar uma semente lá no Norte, no Pará e exigir menos do exigido em São Paulo. Porque aquela sementinha iria crescer, e daqui a uns 20, 30 anos, tornar-se-ía uma árvore comparada à de São Paulo. Cada pessoa é diferente. No ensino fundamental todos são iguais, porém, no ensino médio, diferenciamos o indivíduo de acordo com os interesses pessoais dele. Quem é chegado em Artes, estuda Artes. Nós temos que respeitar a individualidade de cada um. De repente, não posso respeitar a de todos, porém, pelo menos, os divido em grupos: Ciências da Matemática, Biologia.

No artigo, o senhor diz que "o grande problema do Brasil não é a falta de recursos, mas, a gestão dos mesmos". Como poderia ser melhorada a gestão dos recursos da área educacional?
De fato, o governo tem poucas obrigações básicas: com a educação, a saúde e a segurança. O resto pode ser terceirizado, porque o maior sócio de qualquer empresa é o governo. Qual a nossa crise atual? É a de confiança, porque as pessoas não veem ninguém se movimentando para melhorar a educação. E o empresariado fica com o pé atrás. Por outro lado, as escolas verdadeiramente brasileiras, com ideal, são vendidas para as estrangeiras de baixa qualidade. A solução poderia passar por uma parceria público privada. Os bancos, por exemplo, participariam dando nome a diversas escolas, já que eles têm um lucro fantástico. Em um momento de falta de dinheiro, a solução passa pela participação de empresas e da sociedade civil, onde teríamos o Serviço Social Obrigatório. Nele, os estudantes mais carentes iriam aprender com os jovens que estão na faculdade.

Qual a perspectiva que o senhor tem para a educação do país em 2016? Dá para acreditar em um ano melhor?
Dá para acreditar. Porém, a solução está associada à resolução dos imbróglios. Pelo menos os mais fundamentais encontrados lá em Brasília.  Enquanto cada um estiver olhando para o próprio umbigo, não adianta. Eu acredito que em meados do ano tudo se resolva. E a partir daí, a tendência é melhorar. Eu sou otimista.

Fonte: Folha Dirigida
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